A vasta extensão das estepes eurasianas, uma terra de ventos implacáveis e horizontes infinitos, foi o berço de povos nômades que moldaram profundamente a história antiga: os Citas e os Sármatas. Embora muitas vezes confundidos ou agrupados, eles representam culturas distintas, mas intrinsecamente ligadas, que floresceram e declinaram, deixando um legado fascinante de cavalaria, arte e um estilo de vida indomável.
Origens e Desenvolvimento: A Semente Nômade
Os Citas: Mestres da Estepe Ocidental
As origens exatas dos citas ainda são debatidas, mas a maioria dos estudiosos concorda que eles emergiram nas estepes eurasianas entre os séculos VIII e VII a.C. Sua área de influência se estendia da Trácia, no oeste, passando pelas estepes da Ásia Central, até as Montanhas Altai, na Mongólia, a leste. Há teorias que sugerem migrações do norte, leste ou sul, com algumas evidências genéticas apontando para duas fontes principais: uma oriental (Montes Altai) e outra ocidental (Montes Urais).
Os citas eram um povo iraniano (indo-europeu) e se destacavam por sua perícia como guerreiros nômades a cavalo. Eles se estabeleceram firmemente no sul da Rússia, na região do Mar Negro, conhecida como Cítia. Sua cultura era marcada por vestimentas elaboradas, arte corporal com motivos animais e uma religião que venerava os elementos. Eram temidos por suas táticas de combate, que incluíam formações de cavaleiros lançando chuvas de flechas, seguidas por ataques rápidos e retiradas estratégicas, o que os tornava quase invencíveis em seu próprio terreno.
Os Sármatas: Herdeiros da Tradição
Os sármatas são considerados culturalmente relacionados aos citas, e alguns relatos os descrevem como descendentes de grupos citas e até mesmo de lendárias amazonas. Originários do norte do Mar Cáspio e das regiões dos rios Don e Volga, na atual Rússia, os sármatas começaram a se mover para o oeste por volta do século IV a.C., gradualmente substituindo ou assimilando os citas nas estepes pônticas (ao norte do Mar Negro).
Assim como os citas, os sármatas eram exímios cavaleiros e arqueiros. No entanto, eles se distinguiram pela introdução da cavalaria pesada, utilizando armaduras para cavaleiros e cavalos, e longas lanças conhecidas como kontos. Essa inovação tática os tornou uma força ainda mais formidável nos campos de batalha.
Apogeu: O Domínio das Estepes
O Auge Cita
O auge dos citas ocorreu entre os séculos VII e III a.C. Eles se tornaram uma força dominante, influenciando vastas regiões. Sua habilidade militar lhes permitiu confrontar impérios poderosos. Um dos episódios mais famosos é a campanha do rei persa Dario I contra os citas no final do século VI a.C. Dario, em sua tentativa de expansão, invadiu a Cítia, mas foi frustrado pelas táticas de guerrilha dos citas, que evitavam batalhas diretas, esticavam as linhas de suprimentos persas e usavam táticas de “bater e correr”, forçando a retirada de Dario.
Os citas também se tornaram ricos intermediários comerciais, negociando cereais, mel, peles e gado com os gregos, em troca de vinho, têxteis e obras de arte. Essa prosperidade é evidenciada pelos túmulos cita, os kurganes, que revelam tesouros em ouro com intrincados desenhos de animais, um estilo artístico conhecido como “arte animalística cita”.
O Auge Sarmata
Os sármatas atingiram seu apogeu do século IV a.C. ao século IV d.C., sucedendo os citas como a força dominante nas estepes. Eles se expandiram para a Dácia (atual Romênia) e outras partes da Europa Oriental, entrando em contato e frequentemente em conflito com o Império Romano. Tribos sármatas, como os roxolanos, iáziges e alanos, desempenharam papéis significativos nas fronteiras romanas.
Os romanos frequentemente enfrentavam os sármatas, e muitos imperadores romanos se vangloriavam de vitórias contra eles. No entanto, os sármatas também serviram como mercenários ou aliados em algumas ocasiões. A cultura sármata, com sua ênfase na cavalaria e na guerra, deixou uma marca duradoura, influenciando até mesmo as táticas militares romanas. Acredita-se que o mito das amazonas tenha sido inspirado pelas guerreiras citas e sármatas, que lutavam ao lado dos homens.
Declínio e Legado: O Fim de Uma Era e Uma Influência Duradoura
A Queda Cita
O declínio dos citas começou por volta do século III a.C., coincidindo com a ascensão dos sármatas e a pressão de outros povos. As causas exatas são multifacetadas e podem incluir mudanças climáticas, pressões demográficas e militares de outros grupos nômades, e a eventual assimilação ou subjugação por povos sármatas. Muitos citas foram absorvidos pelas culturas sármatas, e sua identidade distinta gradualmente se desvaneceu.
A Queda Sarmata
O fim do domínio sarmata ocorreu a partir do século IV d.C., principalmente devido às invasões dos Hunos vindos do leste. Essas novas ondas de nômades, com suas táticas ainda mais agressivas, desestabilizaram as estepes eurasianas e empurraram os sármatas para o oeste, onde muitos foram derrotados por impérios como o Romano ou assimilados por outras populações. Apesar de sua desintegração como um poder unificado, os sármatas deixaram sua marca. Os alanos, uma tribo sarmata, foram particularmente notáveis, migrando para a Europa Ocidental e até para o Norte da África, influenciando o desenvolvimento de táticas de cavalaria medievais.
Fontes Históricas
O conhecimento sobre citas e sármatas provém principalmente de:
Relatos Gregos e Romanos: Historiadores como Heródoto (considerado o “pai da história”, escreveu extensivamente sobre os citas em sua obra “Histórias”), Estrabão, Diodoro Sículo e Tácito
