Historicamente, “Tartária” (ou “Tartary”) era um nome genérico utilizado por cartógrafos e geógrafos europeus entre os séculos XIII e XIX para designar vastas regiões da Ásia que eram, na maior parte, desconhecidas do Ocidente. O termo abrangia áreas que hoje fazem parte da Rússia, Sibéria, Mongólia, China, Cazaquistão e outros territórios da Ásia Central e do Norte.
Esse uso do termo pode ser visto em diversos mapas antigos, como o de Sebastian Münster (1544), Giovanni Battista Ramusio (1550) e, posteriormente, Emanuel Bowen (em meados do século XVIII), todos os quais usavam “Tartary” para designar regiões dominadas por povos nômades ou semi-nômades, como os mongóis, turcos e tártaros.
Mapa da Tartária utilizado por cartógrafos do seculo XVI
A palavra “tártaro” era, inclusive, usada para descrever diferentes etnias e culturas da Eurásia que não eram plenamente compreendidas pelos europeus. Portanto, “Tartária” nunca foi um império unificado, com governo central, cultura homogênea ou uma única identidade civilizatória, como algumas teorias sugerem hoje.
As raízes do mito da “Grande Tartária”
A teoria da “Grande Tartária” como uma civilização altamente desenvolvida e tecnologicamente avançada — e que teria sido deliberadamente apagada da história — surgiu no século XXI, alimentada por comunidades online. Essa ideia propõe que Tartária teria sido um império global, dotado de conhecimento arquitetônico, energético e espiritual muito além do que conhecemos hoje.
Os teóricos apontam como “evidências” estruturas monumentais como prédios da Exposição Mundial de 1893 em Chicago, edifícios neoclássicos e tecnologias antigas “inexplicáveis”, como supostos sistemas de energia livre ou domos arquitetônicos que funcionariam como antenas.
Povos Tartaros reais que habitavam a região
Contudo, não há qualquer base arqueológica, documental ou historiográfica que comprove a existência de uma civilização tartária com essas características. O que há são interpretações equivocadas ou deturpadas de registros históricos reais, combinadas com ignorância arquitetônica e especulação infundada.
Por que Tartária virou uma teoria da conspiração?
O mito da Tartária cresceu com o mesmo combustível que alimenta outras teorias conspiratórias: a desconfiança nas instituições (universidades, governos, mídia), o apelo ao “conhecimento oculto” e a sedução de narrativas alternativas que prometem uma “verdade escondida”.
Além disso, plataformas como YouTube, Reddit e TikTok ajudaram a espalhar vídeos com imagens de prédios antigos (geralmente do século XIX ou início do século XX), sugerindo que são “restos” da civilização tartária. Na realidade, esses edifícios são frutos do neoclassicismo, do barroco e do art nouveau — estilos arquitetônicos bem documentados e compreendidos.
A ideia também se relaciona com outra teoria conhecida como mud flood (inundação de lama), que propõe que uma grande catástrofe encobriu cidades antigas, ocultando a verdadeira história da humanidade. Ambos os conceitos são frequentemente combinados.
Fontes acadêmicas e documentos históricos
A historiografia oficial não nega a existência de povos tártaros, mongóis e turcomanos, e há ampla documentação sobre esses grupos nas fontes chinesas, persas e russas. O que é negado é a existência de um suposto império global tecnológico chamado “Grande Tartária”.
Entre as fontes legítimas que tratam do termo Tartária e da geopolítica da Ásia Central estão:
The Cambridge History of Inner Asia: The Chinggisid Age (Cambridge University Press, 2009)
Russia and the Golden Horde de Charles J. Halperin (Indiana University Press)
Arquivos de mapas antigos disponíveis em bibliotecas como a Biblioteca Britânica e a Library of Congress, que mostram como “Tartária” era um termo cartográfico amplo e impreciso.
Além disso, pesquisadores como Mark G. Thomas e David Christian tratam da história da Eurásia em suas obras, sempre com base em dados arqueológicos e linguísticos sólidos — e sem qualquer menção a uma civilização tartária secreta.
Por que é importante esclarecer?
Teorias como a da “Grande Tartária” não apenas distorcem o passado, mas também comprometem o entendimento real da história de dezenas de povos que realmente existiram naquela região. Além disso, servem como porta de entrada para pseudociência, negacionismo histórico e, muitas vezes, ideologias extremistas que buscam “revisar” a história com viés ideológico.
A verdadeira história da Ásia Central e do Norte da Eurásia é riquíssima — inclui o Império Mongol, o Khanato de Kazan, os Tártaros da Crimeia, entre outros —, e todos esses elementos estão bem documentados. O fascínio por civilizações perdidas pode ser legítimo, mas ele deve ser acompanhado de espírito crítico, base documental e metodologia científica.
Conclusão
A “Grande Tartária” como civilização avançada que foi apagada da história é um mito moderno sem fundamento histórico ou científico. A Tartária real, enquanto conceito geográfico usado por europeus medievais e renascentistas, refere-se a uma vasta e diversa região habitada por inúmeros povos nômades da Ásia.
É fundamental que busquemos o conhecimento com responsabilidade, baseando nossas conclusões em fontes confiáveis, historiadores sérios e evidências verificáveis. A história da humanidade é fascinante por si só — não precisa de fantasias para ser interessante.
Sobre o Autor
Maborba entusiasta em História Antiga focado em Civilizações e de tecnologias aplicadas à educação. Criador do portal Conexão História Dinâmica, dedica-se a reconstruir o passado através de pesquisas rigorosas e com suporte de IA para tornar o aprendizado de civilizações clássicas imersivo e acessível para todos os públicos.
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