Tocarianos ou Tocharianos

Os Tocarianos: O Enigma Indo-Europeu da Ásia Central

 

Os Tocarianos foram um antigo povo indo-europeu que habitou as bacias do Tarim e Turfan, na atual região autônoma de Xinjiang, noroeste da China, entre o 1º milênio a.C. e o 1º milênio d.C. Sua descoberta no final do século XIX e início do século XX, por meio de manuscritos e artefatos, foi um choque para os linguistas e historiadores, pois revelou a presença de uma língua indo-europeia, o tocariano, muito a leste do que se esperava, no coração da Ásia Central.

 

Quem Eram os Tocarianos?

 

A identificação dos Tocarianos não veio de relatos históricos diretos sobre um “povo tocariano”, mas sim da descoberta de textos escritos em uma língua até então desconhecida. Os manuscritos, encontrados em mosteiros budistas e ruínas de cidades ao longo da Rota da Seda, estavam escritos em duas variantes principais:

  • Tocariano A (Agnean): Falado na região de Karashahr (antiga Agni).

  • Tocariano B (Kuchean): Falado em Kucha e Turfan.

A língua tocariana pertence ao ramo centum das línguas indo-europeias, uma característica compartilhada com o grego, latim, celta e germânico, em contraste com o ramo satem (como o indiano, iraniano e eslavo), que era predominante nas regiões vizinhas da Ásia Central e Índia. Essa distinção linguística gerou um grande debate sobre suas origens e rotas migratórias.

 

Origens e Migrações

 

A teoria mais aceita é que os Tocarianos foram descendentes de grupos de pastores nômades que migraram das estepes pôntico-cáspias (berço da língua proto-indo-europeia) para o leste, provavelmente entre 3.000 e 2.000 a.C. Eles teriam se estabelecido na Bacia do Tarim, adaptando-se a um estilo de vida mais sedentário e agrícola, embora a criação de animais ainda fosse importante.

A presença de múmias do Tarim, algumas com traços caucasoides e datando de até 1800 a.C., reforça a ideia de uma população antiga de origem ocidental na região, embora a ligação direta dessas múmias com os falantes do tocariano ainda seja objeto de estudo e debate.

 

Cultura e Sociedade

 

Os Tocarianos desenvolveram uma cultura rica e florescente, fortemente influenciada pelo budismo, que chegou à Bacia do Tarim via Rota da Seda. Suas cidades, como Kucha, Karashahr e Turfan, eram importantes centros comerciais e religiosos. Os manuscritos tocarianos são em grande parte traduções de textos budistas indianos, mas também incluem documentos administrativos, cartas e textos seculares.

Eles eram habilidosos em artes e artesanato, com murais coloridos e estátuas de Buda adornando seus templos e cavernas. A agricultura de oásis era a base de sua economia, complementada pelo comércio ao longo da Rota da Seda, que conectava a China ao Ocidente.

 

O Fim dos Tocarianos

 

A partir do século VII d.C., a Bacia do Tarim começou a experimentar uma forte pressão de povos turcos em expansão, vindos do norte e do oeste, como os Uigures. Gradualmente, as cidades tocarianas foram turquificadas, e a língua tocariana desapareceu, sendo substituída pelo antigo uigure. No século IX, após a queda do Canato Uigur na Mongólia, muitos uigures se estabeleceram na Bacia do Tarim, consolidando a mudança linguística e cultural.

Embora sua língua e identidade cultural como um grupo distinto tenham se extinguido, o legado dos Tocarianos vive em seus fascinantes manuscritos, que continuam a fornecer informações valiosas sobre a história antiga da Ásia Central, a difusão do budismo e a complexidade das interações culturais ao longo da Rota da Seda. Eles são um lembrete vívido da diversidade étnica e linguística que outrora floresceu nessa encruzilhada do mundo.

 

Fontes para o Artigo sobre os Tocarianos:

Livros e Obras de Referência:

Mallory, J.P. & Mair, Victor H. (2000). The Tarim Mummies: Ancient China and the Mystery of the Earliest Peoples from the West. Thames & Hudson.

Gamkrelidze, Thomas V. & Ivanov, Vyacheslav V. (1995). Indo-European and the Indo-Europeans: A Reconstruction and Historical Typology of a Protolanguage and Proto-culture. Mouton de Gruyter.

Ringe, Donald A. (2006). From Proto-Indo-European to Proto-Germanic. Oxford University Press.

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