No ano de 632 da Era Cristã, o calor escaldante da Península Arábica testemunhou um silêncio estarrecedor na cidade de Medina. O profeta Maomé, o homem que havia unificado as tribos do deserto sob a bandeira de uma fé monoteísta inflexível, havia partido. Ao seu redor, a poeira das batalhas recém-vencidas ainda não tinha assentado, mas uma pergunta urgente tomou o ar e fez tremer o coração da comunidade recém-nascida: quem liderará o Islã a partir de agora?
Aquela fenda aberta pelo luto não se fechou com o tempo. Pelo contrário, expandiu-se e moldou o destino geopolítico e espiritual de impérios inteiros. Hoje, ao olharmos para o mundo islâmico, não vemos um bloco monolítico, mas um vasto mosaico de tradições, filosofias e escolas de jurisprudência. Compreender quantas vertentes existem no islamismo exige voltar àquela tarde de incerteza e acompanhar como uma disputa teológica e política produziu os ramos que sustentam a fé de quase dois bilhões de pessoas.
A Primeira Fratura: A Questão da Sucessão
Enquanto o corpo do Profeta recebia os ritos fúnebres, os anciãos e companheiros mais próximos reuniram-se em um debate acalorado. Uma facção majoritária argumentou que o Islã precisava de um líder pragmático, um administrador experiente e virtuoso escolhido pelo consenso da comunidade. Eles elegeram Abu Bakr, o conselheiro e sogro de Maomé, como o primeiro Califa (o “sucessor”).
Outro grupo, contudo, protestou veementemente. Para eles, a liderança espiritual e política não podia ser objeto de votação secular; ela devia permanecer na linhagem sagrada do Profeta. Defendiam que Ali ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé, fora o escolhido por designação divina.
Daquele impasse decisivo nasceram as duas maiores correntes do islamismo:
1. O Sunismo: A Ortodoxia do Consenso
Os seguidores da maioria autodenominaram-se Ahl al-Sunnah — “o povo da tradição”. Os Sunitas representam hoje cerca de 85% a 90% dos muçulmanos no planeta. Eles afirmam que o verdadeiro caminho reside na imitação rigorosa do exemplo praticado pelo Profeta (a Sunnah) e na aceitação dos califas eleitos.
Para evitar o caos ou a autoridade centralizada de uma figura infalível, os sunitas fragmentaram suas interpretações jurídicas e teológicas em quatro grandes escolas clássicas de jurisprudência (Madhabs), todas reconhecidas entre si como legítimas:
Hanafita: A escola mais numerosa e racionalista, que dá grande espaço ao raciocínio lógico e à analogia. Ela prevalece na Turquia, no Sul da Ásia e em partes do Oriente Médio.
Malikita: Nascida em Medina, fundamenta seus julgamentos nas tradições e nos costumes históricos da própria cidade onde o Profeta viveu. Predomina no Norte e no Oeste da África.
Shafi’ita: Enfatiza um equilíbrio estrito entre o Alcorão e a autoridade comprovada dos relatos tradicionais (Hadiths). É a tradição dominante no Sudeste Asiático (Indonésia, Malásia) e na Somália.
Hanbalita: A mais tradicionalista e literalista das quatro. Rejeita inovações e busca a pureza textual primária. Dessa matriz derivaram movimentos conservadores modernos, como o Wahhabismo na Arábia Saudita.
2. O Xiismo: A Linhagem dos Imames
O “Partido de Ali” (Shi’at Ali) deu origem ao Xiismo, que abriga entre 10% e 15% da população muçulmana global, concentrada sobretudo no Irã, Iraque, Azerbaijão e Líbano. Os xiitas rejeitaram a autoridade dos primeiros califas sunitas e estabeleceram sua fé sobre a figura do Imame — um guia espiritual divinamente inspirado, infalível e descendente direto de Ali e Fátima (filha do Profeta).
Entretanto, as disputas sobre quem era o verdadeiro Imame ao longo das gerações provocaram novas ramificações internas no xiismo:
Duodecimanos (Ithna Ashariyyah): Constituem a grande maioria xiita. Acreditam em uma linha de doze Imames legítimos. Segundo sua teologia, o décimo segundo Imame não morreu, mas entrou em “ocultação” no século IX e retornará no fim dos tempos como o Mahdi para restaurar a justiça.
Ismaelitas: Dividiram-se dos duodecimanos na disputa pelo sétimo Imame. Historicamente conhecidos por suas interpretações esotéricas do Alcorão, hoje formam uma comunidade próspera e plural, liderada pelo Aga Khan.
Zaiditas: Prevalecentes no Iêmen, representam o ramo xiita teologicamente mais próximo do sunismo, pois não atribuem infalibilidade aos seus Imames e aceitam a legitimidade política dos primeiros califas.
A Terceira Via Esquecida: O Kharijismo e o Ibadismo
A disputa entre sunitas e xiitas atingiu seu ponto crítico na sangrenta Batalha de Siffin (657 d.C.). Quando o califa Ali aceitou submeter o conflito político a uma arbitragem humana, um grupo de soldados ultra-radicalizados abandonou suas fileiras. Eles gritavam: “O julgamento pertence apenas a Deus!”
Esse grupo dissidente recebeu o nome de Kharijitas (“os que saíram”). Eles defendiam uma visão radicalmente igualitária e puritana: qualquer muçulmano devoto, mesmo um escravo negro, poderia ser eleito o líder do Islã, desde que mantivesse a perfeição moral. Se cometesse um pecado grave, perderia a liderança e a própria vida.
Embora o movimento kharijita original tenha se extinguido devido ao seu próprio extremismo, um de seus ramos mais moderados sobreviveu. O Ibadismo rejeitou a violência e a intolerância dos primeiros kharijitas e desenvolveu uma teologia baseada na moderação, no pacifismo e na convivência harmoniosa. Hoje, os ibadistas formam a maioria da população no Sultanato de Omã e mantêm pequenas comunidades no Norte da África. Eles representam menos de 1% do mundo islâmico, mas constituem a terceira grande ramificação histórica e independente da religião.
A Dimensão Espiritual: O Sufismo
É impossível compreender o mapa do islamismo sem olhar além da jurisprudência e da política. Enquanto os juristas debatiam leis e os califas disputavam territórios, surgia nas entranhas da civilização islâmica uma busca ardente pelo divino que transcendia a letra fria dos textos. Surgia o Sufismo (Tasawwuf).
O Sufismo não se configura como uma seita separada com seu próprio dogma de sucessão. Ele funciona como o coração místico do Islã. O sufi busca a experiência direta, íntima e amorosa com Deus através do desapego material, da meditação, da poesia transcendental e de rituais contemplativos.
Organizado em ordens espirituais chamadas Tariqas (como a ordem Mevlevi, famosa pelos dervixes que giram em transe meditativo na Turquia, e as ordens Qadiriyya e Tijaniyya), o sufismo penetrou tanto o sunismo quanto o xiismo. Foi o ardor dos mestres sufis que levou o Islã aos confins da Índia, da Indonésia e da África Subsaariana, adaptando os ensinamentos monoteístas às culturas locais com sensibilidade poética.

Por Que Essa Divisão Importa Hoje?
Quando abrimos os jornais e nos deparamos com notícias sobre conflitos no Oriente Médio, as rivalidades geopolíticas são frequentemente rotuladas como “guerras religiosas ancestrais”. No entanto, a história nos mostra um cenário muito mais complexo e fascinante.
Sunitas e xiitas compartilham os pilares fundamentais da mesma fé. Ambos creem no Deus único (Alá), leem o mesmo Alcorão sagrado, orientam-se na direção de Meca durante as orações diárias, jejuam no mês do Ramadã e prestam a caridade ritual. A essência teológica que os une é imensamente maior do que as divergências políticas que os dividiram no século VII.
Ao longo dos séculos, grandes centros urbanos como Bagdá, Cairo e Isfahan viram sunitas, xiitas e sufis conviverem, debaterem na mesma “Casa da Sabedoria” e construírem os alicerces da ciência, da álgebra, da medicina e da filosofia da Idade Média. A polarização violenta que testemunhamos na história contemporânea resulta, na esmagadora maioria das vezes, do uso instrumental da religião por estados modernos em busca de hegemonia regional — como a disputa geopolítica entre a Arábia Saudita (sunita) e o Irã (xiita).
O Vasto Mosaico da Fé
Responder à pergunta “quantas vertentes existem no islamismo?” exige ir além de um número simples.
Historicamente, nasceram três grandes ramos políticos e teológicos: o Sunismo, o Xiismo e o Ibadismo. Dentro deles, a busca pela compreensão da vontade divina floresceu em quatro escolas de direito sunitas, três grandes correntes xiitas e uma infinidade de ordens místicas sufistas.
Essa diversidade não revela fraqueza, mas sim a extraordinária capacidade de adaptação de um sistema de pensamento que se espalhou dos desertos da Arábia até as estepes da Ásia Central, das selvas tropicais do Sudeste Asiático às metrópoles do Ocidente.
O Islã, portanto, não fala por uma única voz. Ele é um diálogo vivo, contínuo e profundo entre o texto sagrado, a memória histórica de suas lideranças e a busca incansável do ser humano pelo divino.
Qual destas correntes — a rica construção jurídica das escolas sunitas, a teologia do Imame oculto no xiismo ou a poética busca espiritual do sufismo — chama mais a sua atenção para explorarmos em detalhes?
Para Saber Mais
Hourani, Albert. Uma História dos Povos Árabes — A obra clássica definitiva para compreender a evolução histórica, política e social do mundo islâmico e suas expansões.
Armstrong, Karen. Islã: Uma História Curtíssima — Uma síntese precisa e acessível sobre as origens teológicas e os eventos que moldaram o cisma entre sunitas e xiitas.
Schimmel, Annemarie. As Dimensões Místicas do Islã — O estudo de referência sobre a poética, a filosofia e o desenvolvimento espiritual das ordens do Sufismo.


